Resenha crítica do livro "Cultura da Interface"

Introdução 

Cultura da Interface é um livro do conceituado e influente pensador do ciberespaço Steven Johnson (Jorge Zahar Editor, 1997; Nova York, Estados Unidos).  

Ler um livro sobre interface datado de 1997 necessita de um certo desprendimento, é preciso ler sem preconceitos, já que muitas das idéias propostas ou imaginadas pelo autor já foram criadas e até são de uso corriqueiro hoje em dia. É importante que a leitura seja feita de forma que os relatos não sejam só vistos como ultrapassados, até porque o livro se torna interessante a partir do momento em que se consegue fazer uma relação entre o cenário da tecnologia em 1997 e hoje, mais de dez anos depois. Num espaço de tempo físico normal, dez anos não é quase nada, mas sabemos que no mundo da tecnologia, um espaço de tempo como esse é capaz de sofrer transformações inimagináveis.  

O autor usa de uma estrutura narrativa que me agrada. Cultura da Interface é o segundo livro de Steven Johson que leio (o primeiro foi Emergência – A dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares – Jorge Zahar Editor; 2002), onde o autor transmite seus estudos de forma fácil e leve, sempre com analogias e pontuando historicamente. Em Cultura da interface ele relata como o mercado e as novas tecnologias se comportavam, sempre recorrendo a uma contextualização histórica também, falando sobre cada uma das áreas especificas do livro ligadas a interface: desktop, janela, links, texto e agentes. Além de pontuar, o autor ainda expõe suas opiniões e propõe melhorias ou novas idéias, algumas delas que já foram implantadas entre o tempo em que o livro foi publicado até hoje em dia. Por outro lado, como o livro trata de interface e não traz nenhuma imagem de exemplo, senti um pouco de dificuldade por ter que somente imaginar as interfaces e quais eram as experiências dos usuários que a utilizavam. 

O livro Cultura da Interface é um daqueles livros que você lê sabendo do que ele vai tratar, mas lê mesmo assim para conhecer outros pontos e aspectos que você nunca imaginaria sobre o tema. Você lê um livro sobre uma coisa que utiliza todos os dias – no caso, as interfaces – para saber um pouco mais sobre o que está por trás daquilo, como aquilo que você usa instintivamente foi desenvolvido, como foi pensado, todos os passos, todos os erros e acertos… é como estudar com um pouco mais de profundidade a história de seu país, estado, cidade – conhecendo o passado você começa a compreender melhor o presente, logo, conhecendo as evoluções das interfaces, você começa a entender melhor o porque das coisas serem como são hoje em dia. Johnson diz que o design de interface é a “fusão da arte e da tecnologia” e que as interfaces são “softwares que dão forma à interação entre usuário e computador”. De uma forma simples, é isso mesmo: é pensar em como transformar os zeros e uns em representações gráficas para o entendimento fácil de pessoas que, como a maioria dos não-programadores, pudessem entender.

Apresentação e Apreciação Crítica 

Num primeiro momento o livro trata da analogia do desktop que foi levada para o computador, como a metáfora transpondo uma escrivaninha real para o digital foi importante para uma melhor assimilação e aceitação de não-programadores, contrapondo-se às complexas linhas de comando que era necessário se conhecer para operar um computador. Johnson conta o por trás da história, como a metáfora do desktop foi melhorada pelo centro de pesquisa da Xerox, como foi subutilizada e como Steve Jobs – atual CEO da Apple – se aproveitou do que conheceu na Xerox para aplicar em um dos primeiros sistemas operacionais a utilizar interface desktop, o Lisa, e mais tarde lançando o Macintosh. Apesar de nos ser claro hoje em dia que a metáfora da escrivaninha, o mouse, os ícones e outras facilidades implantadas no computador são extremamente funcionais, houve quem criticasse dizendo que esses meios eram apenas recursos visuais desnecessários, que tudo o que precisavam já era possível ser realizado com as próprias linhas de comando. Me lembro das primeiras vezes que utilizei um computador e realmente já comecei usando o sistema operacinal Windows 3.11, mesmo que esse não fosse um primor em suas interfaces gráficas, já dispunha de todas as grandes inovações que Johnson cita no livro que realmente mudaram o modo de se usar com computador: o mouse, os ícones e as janelas. É realmente interessante pensar em como essas coisas que são tão automáticas e comuns hoje em dia possam ter sido uma transformação na vida das pessoas que utilizavam computadores anos atrás.  

Numa das retomadas históricas sobre o desenvolvimento do mouse – pensando na metáfora do desktop – Johnson diz que o mouse é a representação dos seus movimentos reais no digital, uma manipulação direta: o mouse faz o papel de representante do usuário no espaço de dados, é você dentro do computador escolhendo para onde ir. Pensando sobre isso, podemos perceber como o mouse é revolucionário nesse ponto onde, se ele não existisse, teríamos que continuar a digitar linhas de código para abrir cada arquivo, para executar cada ação – o mouse é um atalho. Como o livro diz, nossa memória visual é muito mais poderosa que nossa memória textual, logo, decorar caminhos de cliques por ícones é mais fácil que decorar palavras seqüenciais para se abrir o mesmo arquivo. Podemos perceber que o mouse, mais os ícones e janelas podem ter sido os grandes responsáveis do porque os computadores terem o grande sucesso que têm hoje em dia. 

Um dos capítulos do livro trata somente sobre janelas que, até mais que o mouse, são mais invisíveis a nós. Damos um duplo clique sobre um ícone e esse nos abre o conteúdo que buscamos, um documento de texto, uma planilha, um navegador – estamos interessados no conteúdo, e a janela em si passa despercebida. Nem pensamos na evolução e nos estudos necessários para chegarmos no que temos hoje com relação a janelas que se sobrepõem, abrem e fecham com simples cliques.  

Já depois desse histórico de pesquisas e inovações sobre as janelas, chegamos nas interfaces atuais, onde se começa a tratar das interfaces mais dinâmicas e com inovações mais contantes, as interfaces de navegadores e dos sites propriamente em si. Johnson faz um levantamento do porque o navegador Internet Explorer – uma janela – é até hoje a mais utilizada – todas os movimentos e tramas realizadas pela Microsoft, passando até mesmo por questões judiciais para ter a fatia do mercado de navegadores que ela detém até hoje. Para pessoas que trabalham com internet (desenvolvedores web, webdesigners, etc.) é uma história interessante e importante de se conhecer para entender o contexto atual. 

Depois da evolução janelas > navegadores, passamos aos links. Nesse ponto ocorre uma longa discussão do uso do termo ´surfar´ na internet e um comparativo com “usuários” de TV. O autor afirma que não se pode comparar um usuário de internet com um de TV: uma pessoa a frente da TV tem como única interação o zapear de canais, sem nenhuma interligação – já os usuários de internet também podem simplesmente zapear pelos links, mas esses sim possuem ligações de significados. Johnson discorre também sobre como as pessoas criavam esses links na década de 90 (e ainda o fazem hoje em dia) – o editor que escreve um texto sobre a Apple cria um link da palavra Apple para o site da empresa – não faz muito sentido a palavra Apple ter um link para o sita da empresa, já que é muito mais provável que o leitor queira saber mais sobre artigos relacionados a Apple do que ver um site institucional. Isso é apenas um exemplo, mas é o que acontece muitas vezes em textos, links desnecessários que não agregam muito ao texto. Uma linkania eficiente seria aquela em que textos citam artigos relacionados ao mesmo tópico, tornando assim uma leitura mais rica. Como o texto diz “O surfe na web tem a ver com profundidade, com vontade de saber mais”. 

O próximo ponto tratado no livro é sobre Texto. Johnson afirma que infelizmente essa é uma área que continua praticamente inalterada desde quando começou a ser explorada com os hiperlinks na web. Ele diz que, apesar de na atualidade a tendência é de cada vez mais nos apoiemos em interfaces gráficas, sempre existe uma ajuda textual – nomeando pastas, arquivos, os próprios ícones que possuem sempre um rótulo abaixo dele… Aqui Johnson discorre também sobre como o processo de escrever no computador mudou nossa maneira de escrever profundamente – ele parte do princípio de que quando temos que escrever uma carta, por exemplo, normalmente elaboramos toda uma sentença antes de transcreve-la para o papel – já com os editores de texto, o processo do pensamento se torna paralelo ao da escrita, possibilitando, por exemplo, que os textos se tornem muito mais complexos pela possibilidade de pensar e escrever ao mesmo tempo sem ´perder nada pelo caminho´. 

Já lendo sobre o que o autor pensa sobre os Agentes, confesso que pelo nome achei um pouco estranho, mas ele trata exatamente sobre pequenas aplicações que usamos todos os dias: ele traduz um agente como um ´criado digital´, o que eu compreendo como todos aqueles programinhas que ´aprendem com o usuário´ como esse próprio editor de texto que estou usando agora, o Writer do BrOffice: a partir do momento que digitei uma mesma palavra algumas vezes, quando ele reconhece que essa palavra pode ser escrita mais uma vez identificando as primeiras letras, ele completa essa palavra, bastando eu apertar a tecla Enter para a palavra se completar, ou se essa palavra não for a que eu quero, basta eu continuar escrevendo para que a sugestão de palavra dada pelo programa suma da tela.

Pelo que ele diz no texto, acredito que esse tipo de recurso não fosse tão comum na década de 90 – hoje vemos isso em aplicações web para música, por exemplo, como o Pandora e o próprio Last.FM. Johnson inclusive cita um programa semelhante, chamado Firefly, onde esse tipo de agente atua da mesma forma: o usuário escolhe uma série de discos e o programa vai sugerindo músicas parecidas com aquelas selecionadas. Se o usuário gostar, ele dá um OK, se não, ele simplesmente diz que não gostou, e a partir desse refinamento o programa vai se acordando com o gosto do usuário. A partir desse relatório, é possível gerar um banco de dados no próprio programa, que pode fazer uma combinação do tipo ´uma pessoa já ouviu isso e isso e gostou das duas, é provável que se outra pessoa selecionar alguma dessas músicas e eu sugerir a outra mesma, ela vá gostar também´. 

Além desse tipo de agente, que é chamado de ´agente social´, existem outros dois tipos de agentes, os agentes pessoais e os agentes viajantes. 

Ele exemplifica um agente pessoal aquele tipo de ajuda como conhecemos do Word – o clips, ou o cachorrinho) ou um agente que identifique com que freqüência você esvazia sua lixeira e ele faça isso automaticamente por você. Já o agente social é um pouco mais complicado, ele diz que o agente social é aquele que “levanta âncora do computador hospedeiro e vai em busca da terra incógnita do ciberespaço”, trazendo assim as informações que o demandante pediu. 

De uma maneira simplificada, os agentes podem ser descritos como:

 “(…) instalam-se nos disco rígido do nosso computador e lá ficam para sempre, espionando nosso comportamento e ajudando quando têm uma chance. Outros são turistas em tempo integral, vagando pela internet em busca de informações e só voltando para casa quando têm novidade para contar. Alguns agentes são extrovertidos; compilam dados relevantes para nós conversando com outros agentes, trocando histórias e recomendações. Essas três classes representam (…) o agente “pessoal”, o agente “viajante” e o agente “social”.”

 
Conclusão
 

O livro Cultura da Interface, apesar de ser de 1997 e se mostrar ultrapassado em alguns poucos pontos, ainda assim traz reflexões sobre alguns temas que perduram até hoje com relação ás interfaces e tudo mais que está relacionada a ela, como usabilidade e ética.

Mesmo com seus mais de 10 anos de idade, o livro aponta melhorias que poderiam ter sido realizadas e até hoje ainda não foram feitas, como explorar ambientes de deskop 3D (mesmo que hoje já tenha havido um grande avanço, essas interfaces ainda não são muito comuns), aprimoramento dos recursos de busca com metadados, diferentes tipos de organização de arquivos, como pastas que se organizariam de acordo com parâmeros estabelecidos com palavras chaves de arquivos, etc.

Esse livro com certeza é um livro que vale a pena ler, pois acredito que mesmo daqui 5 ou 10 anos, muitas das idéias propostas por Jonhson ainda não terão sido criadas, muitas questões éticas ainda estarão sendo discutidas e a riqueza histórica de todas as criações sempre valem a pena se conhecer.

Enfim, ao se chegar no final do livro, lendo as conclusões do autor, existe aquele sentimento bom que se tem ao final de um livro que agrega alguma coisa, aquele sentimento de que as coisas que foram lidas e foram assimiladas se encaixam completamente em lacunas que, ás vezes, nem sabia que existia no conhecimento sobre o tema – aquele sentimento que agora, as coisas fazem mais sentido.

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